Os discursos midiáticos no contexto da crise pandêmica global

Dentro do cenário de pandemia em que encontra-se o mundo, é possível verificar grandes diferenças nos discursos midiáticos em meio a esta situação. É preciso lembrar que ainda estamos em meio a pandemia do vírus Covid-19 e não temos previsão de término tão cedo.

O que podemos observar no âmbito da comunicação é que, no geral, as linhas editoriais mudaram, pois no início da pandemia falava-se muito sobre o fim da pandemia, vacinas e o alarmante número de mortes causadas pelo vírus. Hoje, neste cenário pandêmico, o que percebemos é que este status de pandemia deve ser entendido como o "novo normal", que não existe um fim iminente, que as vacinas virão, mas que serão para poucos e que o número de mortos é apenas mais uma estatística irrelevante.

Percebe-se que a narrativa mudou consideravelmente. É claro que a economia também mudou, e se percebeu que é possível lucrar, e muito, com a pandemia do Covid-19 por vários motivos: o consumo geral aumentou e o dólar já atinge níveis históricos de alta. Consumindo-se mais, é necessário que os discursos midiáticos sustentem esse padrão social, é necessário que as pessoas continuem em suas casas, que seja fomentado o tele-trabalho e que o mercado não pode parar.

Como o panóptico muito citado por Michel Foucault, somos constantemente vigiados. Pessoas em quarentena tornam-se consumidores melhores. Percebemos em todos os meios de comunicação que o mote agora é acomodação com este dito "novo-normal". Percebemos que o marketing de farmácias e serviços de entrega nunca foi tão evidente.

Percebemos menos pragmatísmo em relação a pandemia agora do que em seus meses iniciais: enquanto o Brasil chorava pelas mortes na Itália, as mortes em nossa terra foram deixadas nos bastidores, até que os números passassem a serem informados de maneira a não causar impacto na população, como é feito hoje. Lembrando que os nossos números de mortos e infectados já ultrapassou a Itália e estamos em segundo lugar neste ranking bizarro.

Outro ponto que percebemos na mudança de direção dos discursos midiáticos com relação à pandemia é sobre a ética da informação: são poucos os veículos de comunicação com concessão pública que ainda se engajam no combate e na prevenção da COVID-19. Muitas emissoras de rádio e televisão já voltaram as suas rotinas normais, com os trabalhadores na empresa e com muito menos informação sobre os assuntos pertinentes ao COVID-19.

Enquanto o mundo fez da pandemia um meio lucrativo de ganhar dinheiro, este mesmo mundo sofre com os números crescentes de mortes pelo vírus, principalmente em países que possuem grande parte da população e da classe política conservadora, como o Brasil e os EUA. É importante dizer que foi amplamente divulgada a posição dos presidentes de ambas as nações a respeito da pandemia enquanto esta ainda estava em estágios iniciais. Trump disse não tratar-se de algo que poderia afetar o povo americano, Jair Bolsonaro disse tratar-se de uma "gripezinha".

É importante que os veículos de comunicação cooperem entre si, informando de foma geral à população sobre a importância distanciamento social, dos meios de prevenção e propagação deste vírus e que a informação seja tratada de forma ética, sem assustar a população ou sem tendenciar a população ao consumo de produtos por causa da pandemia com publicidade direcionada.

Como a maioria dos meios de comunicação funcionam por meio de concessões públicas, seria necessário que, ao menos neste período de pandemia, houvesse uma regulamentação para a manutenção da ética na informação, para proteger a população e garantir que exista um fluxo de informação humano, real e direto, sem omissão de dados e sem manipulações.

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